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Os problemas do excesso tecnológico
Rita Palladino/Press e Mídia
No início dos anos 1990, quando a telefonia celular desembarcou no Brasil, um fenômeno inimaginável estava para nascer e desafiar tudo o que se acreditava até então: que a tecnologia moderna só era disponível para os privilegiados. Os especialistas (e os escritores de ficção científica) diziam então que a tecnologia iria libertar a humanidade do excesso de trabalho, facilitando tudo e deixando mais tempo para o lazer, os estudos etc.
Entretanto, o tempo passou e o que se viu foi o contrário. Contatos do trabalho telefonam para um número fixo. Não atendeu ou deu ocupado? Ligue no celular!!! Mande um SMS!!! Quem se importa se a pessoa está em sua casa desfrutando momentos com a família? Ou em férias??? Enfim, parece que tudo virou urgência, e palavras como “inacessível”, “repouso”, “intimidade”, e “privacidade”, entre outras, caíram em desuso.
O pior é que o que começou como “coleira eletrônica” de algumas empresas, acabou gerando uma nova classe de dependência comportamental: a dos tecnólatras ou tecnomaníacos. “Esse é um viciado em tudo quanto é novidade tecnológica e tem de suprir sua dependência comprando qualquer coisa que apareça no mercado, mesmo que não tenha a menor necessidade, e ‘precisa’ usar suas novas ferramentas para ficar mais e mais conectado ao trabalho”, afirma o analista comportamental João Luiz Nascimento, para quem a tecnomania é uma dependência como qualquer outra, que leva a outros comportamentos compulsivos.
“Essas pessoas compram aparelhos mais modernos de telefonia para ficar 24 horas conectado ao trabalho. Usam o GPS para localizar uma rua a apenas dois quarteirões da própria casa só para justificar a compra do aparelho, entre outras coisas, esquecendo que há coisas mais importantes na vida, como família, estudos etc. E esse distúrbio começa a afetar outras áreas de sua vida, aumentando sua insatisfação e sua compulsão, como qualquer vício, aliás”, diz ele.
O publicitário Tarcísio R., que faz tratamento por conta dessa dependência, narra sua experiência, dizendo que só se deu conta de que precisava de ajuda, tanto quanto um dependente químico, quando ficou perto de perder tudo.
“Eu comecei com a ‘coleira eletrônica’, que não desligava nunca, nem à noite, nem nas férias. Depois foram as redes Wi-Fi, os 3Gs, as conexões dos hotéis onde me hospedava, os blackberrys etc. O pior é que minha conexão era só com o trabalho, sem dar atenção para a minha família, ou amigos. Se saía para uma noitada, irritava a todos, pois ficava o tempo todo mandando torpedos ou atendendo ao telefone, sem conversar com quem estava próximo. Comprava tudo o que eu via de novo e que, achava, ‘facilitaria’ minha vida, sem olhar preço, sem controlar as despesas ou vida pessoal”, diz o publicitário, que confirma ser uma dependência igual a outras, no sentido de sempre pedir por mais.
“São horas conectado à internet, e sempre aumentando, aparelhos que deixam de satisfazer a cada novo modelo que surge, mesmo que apenas a cor ou modelo tenha mudado, criando uma ânsia e uma insatisfação que não sabemos aonde vai parar. E quando nos damos conta, ou pedimos ajuda ou afundamos”, conclui Tarcísio.
O problema tem se disseminado tão rapidamente que há estudos (inclusive no hospital das Clínicas, em São Paulo), para tratar essa dependência. Um estudo realizado pela Pew Internet & American Life Protect junto a usuários compulsivos de internet aponta que eles têm problemas com gestão de tempo (96%), de relacionamento (85%), sexuais (75%), no trabalho (71%), financeiros (42%), de bem-estar (29%) e na escola (15%).
O Dr. João Luiz, realista, não culpa as inovações pelo problema: “Um dependente tecnológico não é diferente de nenhum outro. Algo está errado com essa pessoa e ela procura um mecanismo de escape, no caso a tecnologia, que cause a sensação de completude”, diz ele, afirmando que, muitas vezes, as exigências da vida moderna servem como gatilhos para detonar esse comportamento. “O que começa com um simples celular ligado 24 horas, por conta do trabalho exigente, pode se tornar um expediente eterno. E, do mesmo modo de outras dependências, a pessoa precisa, primeiro, reconhecer que tem um problema”.
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