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Ócio criativo aumenta produtividade?

Domenico De Masi, sociólogo italiano, sugere a união de trabalho, estudo e lazer para melhorar a qualidade de vida e aumentar os padrões de produtividade no âmbito profissional. Entenda o conceito e descubra quais as dificuldades para aplicá-lo no dia a dia


Rodrigo Capelo/MBPress
Trabalho, estudo e lazer. É possível exercê-los ao mesmo tempo? É razoável ter uma rotina na qual esses três elementos se cruzem intensamente, a ponto de a pessoa não conseguir distinguir com qual está se ocupando em determinado momento? Para o sociólogo italiano Domenico De Masi, a resposta é ‘sim’. Ele é o criador do conceito do “ócio criativo”, alternativa para o atual modelo de trabalho.

O primeiro passo para entender a teoria de De Masi é compreender a diferença entre o ócio criativo e o ócio como é definido popularmente. Este remete à inatividade, àquilo que a Igreja Católica determinou como pecado capital: a preguiça. No livro “O Ócio Criativo”, o sociólogo afirma que este tipo de ócio é “dissipador e alienante”, e faz com que “nos sintamos vazios e inúteis”.

Já o ócio criativo, na visão de seu idealizador, tem como objetivo manter a mente ativa e gerar a sensação de liberdade, felicidade e crescimento pessoal e profissional. “O ócio de De Masi é a ocupação do tempo de forma gratificante, para que a sociedade torne-se mais feliz, e essa é uma ideia ótima”, explica o sociólogo brasileiro e consultor de marketing Carlos Gonçalves. “É muito diferente do ócio, uma ocupação descompromissada e sem objetivo.”

Com a evolução da tecnologia e o início da chamada “Era do Conhecimento”, o ócio criativo torna-se uma alternativa cada vez mais viável, segundo De Masi.

O sociólogo italiano acredita que a maneira de produção industrial estipulada por Henry Ford no início do século 20 está ultrapassada e em decadência. “A sociedade pós-industrial privilegia a produção de ideias, o que por sua vez exige um corpo quieto e uma mente irrequieta”, descreve no livro.

A tentativa de reinventar as relações de trabalho no mundo contemporâneo, no entanto, ainda é vista com cautela por especialistas. “A premissa de Domenico De Masi é muito interessante e deveria ser pensada pelos Estados e instituições, mas ela ainda é muito desconectada da realidade”, prossegue Carlos Gonçalves. O sociólogo brasileiro acredita que, principalmente em grandes cidades, como São Paulo, as relações profissionais ainda são muito tradicionais, e isso impede a implementação do ócio criativo.

O empresário e diretor da consultoria SEI (Sustentabilidade, Estratégia e Inovação), João Paulo Altenfelder, concorda que a adoção das teorias de De Mais é mais difícil em metrópoles. “Se cairmos no truque dos padrões culturais, como o famoso ‘tempo é dinheiro’, realmente dificulta”, opina. “E em grandes cidades isso fica mais exacerbado, pela competitividade entre as pessoas, pelo ritmo frenético do trânsito, entre outros motivos.”

Ócio criativo x produtividade

A partir da premissa de que um profissional que una trabalho, estudo e lazer é mais feliz, a teoria de Domenico De Masi pode significar mais produtividade para as empresas.

No livro “O Ócio Criativo”, o sociólogo italiano afirma que os adeptos da teoria fazem pouca distinção entre trabalho e tempo livre. “[A pessoa] Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo.”

No entanto, a preocupação de criar um ambiente propício ao ócio criativo não é existente nas empresas atualmente, segundo o empresário João Paulo Altenfelder. “Não traduzo a história do Google ou da Microsoft de criar salas com pebolim e tevês como uma tentativa de proporcionar o ócio criativo”, aponta. Para ele, estas são as chamadas “salas de descompressão”, as quais não possuem relação com a tese de De Masi.

A falta de domínio que a companhia teria sobre os funcionários, para o consultor, é o principal motivo para a aparente despreocupação com o assunto. “É muito difícil imaginar uma empresa que coloque objetivos de produção em uma filosofia que não permite muito controle”, justifica Altenfelder. “As corporações têm uma hierarquia que não está preparada para isso”. O ócio criativo é uma teoria, na visão dele, mais viável para quem possui um negócio próprio.

O mais indicado para manter a qualidade de vida e o bom desempenho no trabalho, para o consultor, é balancear a forma como o ócio criativo é aplicado, para não se tornar submisso às circunstâncias. “A sociedade do conhecimento pode ajudar a trazer mais produtividade e mais exigências, mas não podemos nos tornar escravos do produzir, produzir e produzir”, finaliza.

 
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